Òná Ìrin: Caminho de Ferro
A exposição Ònà Irin: Caminho de Ferro, da artista Nádia Taquary, reúne obras de diferentes períodos de sua trajetória e revela a força do feminino ancestral como eixo de sua criação poético-visual. Combinando escultura, instalação, objetos simbólicos e uma primorosa pesquisa de materiais – como búzios, miçangas, metais e fibras –, a artista constrói um universo sensível marcado pelas cosmologias iorubanas, pela memória afro-brasileira e pela presença das Ìyámì, das Yabás e das sociedades femininas africanas. A mostra adota o fluxo ferroviário como metáfora dos caminhos da vida, das encruzilhadas e da dinâmica espiritual guiada por Exu e Ogum, propondo ao visitante uma experiência ritualística, sensorial e profundamente simbólica.
A curadoria é assinada por Amanda Bonan, Ayrson Heráclito e Marcelo Campos, que articulam o diálogo entre as diversas séries da artista, ressaltando a centralidade do feminino sagrado e a potência das tecnologias espirituais na construção da obra. A exposição conta também com a contribuição de curadores assistentes do Museu de Arte do Rio (MAR) e de uma extensa equipe multidisciplinar comprometida com a pesquisa, montagem e mediação.
No MUNCAB – Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira, em Salvador, Ònà Irin: Caminho de Ferro é realizada graças à parceria entre o próprio museu, a Prefeitura de Salvador, por meio da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (SECULT), e a Organização de Estados Ibero-americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI). A direção geral é de Cintia Maria, com direção artística de Jamile Coelho, reafirmando o compromisso do MUNCAB em celebrar e difundir a produção artística afro-brasileira e suas diversas matrizes histórico-culturais.
O quê: Ònà Irin: Caminho de Ferro, de Nádia Taquary
Curadores: Amanda Bonan, Ayrson Heráclito e Marcelo Campos
Quando: 30 de novembro de 2024 à 30 de agosto de 2025
Onde: Museu Nacional da Cultura Afro-brasileira
Ònà Irin: Caminho de Ferro
A artista Nádia Taquary iniciou sua trajetória em artes visuais no ano de 2010, com investigações sobre a joalheria afro-brasileira (arbitrariamente conhecida como “joia de crioula”). Nessa fase, o objetivo era apresentar a simbologia das “pencas de balangandãs” usadas como pecúlio, que se desdobrava em estratégia de liberdade para negras escravizadas e libertadas na Bahia do século 18 e 19. Com o passar do tempo, a pesquisa de Nádia Taquary sobre o tema se aprofundou e expandiu escalas: a artista passou a experimentar outros materiais e a se interessar por instalações e esculturas, buscando a compreensão dos signos sagrados do universo afro-brasileiro.
A produção poética de Nádia Taquary acontece no enfrentamento de distintos caminhos e descobertas. Seu percurso criativo mergulha em um mundo onde forças elementares, como a insegurança e o medo, emergem de forma desestabilizadora, movendo a necessidade de cura.
É por essa função terapêutica que se torna necessário entoar o Orin (cantigas religiosas que fazem a comunicação entre o mundo material e o espiritual): “Èrù dé màa jùbá màa yo / ìjó” (O medo chegou, eu saúdo e realizo / passo). A força desse ritual de louvor tem o objetivo de conectar as energias de duas deidades do panteão iorubano, Exu Olónan (o dono dos caminhos) e Ogum (o senhor dos caminhos). No sistema mítico-filosófico africano, Exu e Ogum são energias matriciais e forças disruptivas fundamentais aos processos iniciáticos. Orientada por esses saberes, a artista tece os itinerários da sua criação.
É importante ressaltar que a exposição Ònà Irin: caminho de ferro contém obras de diferentes períodos, que dialogam entre si, por causa de uma temática recorrente na obra da autora: a compreensão de um feminino ancestral. Desde o início da sua obra, é notável destacar a relação entre o sagrado e o feminino, como demonstram as suas investigações sobre o universo das Yabás (orixás femininos), das Geledés (sociedades femininas africanas) e das Ìyàmìs (mães ancestrais). É importante ressaltar que, em Nádia, o feminino é força empoderadora. Daí a aura de feminismo mítico que exala das suas deidades.
A mostra Ònà Irin: caminho de ferro elege a espacialidade de um fluxo ferroviário intenso como metáfora da dinâmica vida. Linhas de trem se multiplicam em infinitos destinos, perspectivas e encruzilhadas, celebrando a poética do movimento, da comunicação (Exu) e da tecnologia (Ogum). É nesse espaço que Exu e Ogum habitam, vivem e se alimentam. É nele que se serve o padê de Exu e o inhame de Ogum como oferendas (ebós) para que todos os caminhos se abram. Na instalação, estão inseridas, de forma harmoniosa, obras das séries que homenageiam o feminino ancestral. Dentre elas destacam-se: Oríkìs, Yabás, O que você não vê, Mulher Pássaro e Mulher Peixe. Essas obras exibem uma primorosa riqueza de materiais e uma compulsiva artesania na confecção das peças. Búzios, miçangas, plumas e palhas convivem com aparições figurativas de cabeças e corpos que se comportam como evocações de presenças. Tudo isso embalado por uma contundente paisagem sonora. A artista constrói um manifesto mítico-poético de afirmação feminista.
A exposição se inicia com a obra Mundo / Ifá, a grande cabaça da existência, na qual simbolicamente estariam contidos os elementos da criação, que devem ser mantidos no mais absoluto sigilo. Na obra, a cabaça encontra-se no centro de um grande tabuleiro de Ifá, senhor de todos os destinos. Toda a exposição está regida pelo porta-voz (Ifá) do deus supremo (Orunmilá).
Ònà Irin foi criada inicialmente no Museu de Arte do Rio e só podemos retomá-la agora, no Muncab, pedindo licença aos ancestrais. Exibir a mostra aqui é também um gesto de respeito e de conexão com aqueles e aquelas que trilharam este caminho antes de nós, reafirmando Salvador — cidade onde a artista reside e desenvolve seu trabalho — como guardiã dos mistérios, das tecnologias e dos conhecimentos que fortalecem nossas ações e ressoam no presente.
Ògun yè ònà ọlá sí ẹbúté mi: Ogum abre caminhos de honra para que eu chegue ao meu destino.
Amanda Bonan, Ayrson Heráclito e Marcelo Campos
Mulheres que Abrem Caminhos
A exposição Ònà Irin: Caminho de Ferro, de Nádia Taquary, reafirma a potência da criação feminina como princípio vital que move e transforma mundos. Ao adentrar este território de imagens, materiais e presenças que evocam a força dos Orixás, das ancestrais e das sociedades femininas africanas, o público é convidado a reconhecer, em cada gesto artístico, a continuidade de uma sabedoria que atravessa séculos e que permanece como fundamento da experiência afro-brasileira.
Nádia Taquary, cuja obra nasce do encontro entre memória, espiritualidade e investigação formal, nos entrega uma narrativa em que o feminino não é representação, mas energia estruturante. É força que abre caminhos, que cura, que comunica, que sustenta e que reorganiza sentidos. Em suas esculturas e instalações, o sagrado e o cotidiano se misturam, revelando a dimensão criadora das mulheres negras — aquelas que, mesmo submetidas à violência colonial, mantiveram vivo o conhecimento ancestral, resguardaram tecnologias espirituais e ergueram mundos inteiros com suas mãos, corpos e histórias.
Para o MUNCAB, apresentar Ònà Irin: Caminho de Ferro em Salvador, cidade onde a artista vive e cria, é também reafirmar o lugar da capital baiana como centro da diáspora africana e como território onde as tradições de matriz africana seguem pulsando com intensidade. Cada obra desta exposição se inscreve no chão da Bahia como uma saudação às mulheres que moldaram nossa cultura, nossa religiosidade e nossa vida comunitária.
A realização desta mostra só se tornou possível graças à parceria com a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Salvador (SECULT), que tem trabalhado conosco para fortalecer políticas públicas de valorização da cultura afro-brasileira. Esta colaboração reafirma o compromisso compartilhado de promover ações que ampliem acesso, preservem patrimônios simbólicos e celebrem a contribuição histórica das populações negras para a construção do Brasil.
Ònà Irin é um convite para caminhar com nossos ancestrais, escutar a inteligência das mulheres que nos precederam e reconhecer, na criação artística contemporânea, a continuidade dessa força transformadora. Que esta exposição abra estradas de sensibilidade, memória e liberdade — e que cada visitante encontre aqui um ponto de encontro entre passado, presente e futuro.
Cintia Maria
Diretora-Geral
Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira – MUNCAB
Nádia Taquary
A artista visual Nádia Taquary (Salvador, 1967) é hoje um dos nomes centrais da arte contemporânea afro-brasileira. Sua obra, que transita entre escultura, instalação, objetos-símbolo e videoinstalação, emerge de um compromisso profundo com a memória afro-diaspórica, com a resistência feminina negra e com a reelaboração poética das tradições afro-brasileiras. Ao longo de mais de duas décadas de pesquisa, Taquary consolidou uma linguagem singular que articula ancestralidade, crítica histórica e experimentação formal, inserindo sua produção no circuito nacional e internacional das artes visuais.
Filha da Bahia e formada em Letras pela UCSAL, com especialização em Estética, Semiótica e Cultura pela Escola de Belas Artes da UFBA, Taquary soube transformar a sua vivência afetiva com a joalheria crioula — objeto presente em sua memória de infância — em um campo expandido de investigação artística. A partir desse repertório íntimo, ela desenvolveu uma poética que revisita técnicas e materiais tradicionais — bronze, búzios, miçangas, madeira, fibras, ourivesaria colonial — e os reinscreve em narrativas contemporâneas sobre identidade, poder, fé, memória e futuro.
Ao explorar simbolismos da cultura afro-brasileira e das matrizes yorubás, a artista discute as tensões entre apagamento e permanência, violência e fabulação, silêncio e reinvenção. Sua pesquisa incorpora referências que vão do candomblé a práticas seculares de adorno e corpo, construindo um campo estético que desafia a separação entre arte, rito, objeto e linguagem. Nesse sentido, sua obra integra uma perspectiva de decolonialidade que não é apenas temática, mas também formal: Taquary desloca hierarquias e questiona os modos tradicionais de ver, colecionar e legitimar arte.
De presença crescente em instituições, coleções e debates internacionais, a artista tem realizado exposições individuais relevantes, como Ìyàmì (2021), na Paulo Darzé Galeria; Ònà Irin: Caminho de Ferro, apresentada no Museu de Arte do Rio (2023–2024) e no Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (2024–2025); além de participações em feiras e mostras no exterior, incluindo a 24ª Bienal de Sydney (2024). Sua obra também vem ganhando projeção no circuito crítico, com indicação ao Prêmio PIPA 2024, reforçando sua inserção no panorama da arte contemporânea brasileira.
Nádia Taquary representa uma geração de artistas que reposiciona a estética afro-brasileira a partir de dentro: não como exotismo, mas como epistemologia, como arquivo vivo e como tecnologia social. Seu trabalho captura forças ancestrais que reverberam no presente e projeta narrativas que tensionam o imaginário colonial, apontando para futuros possíveis onde o corpo negro, a mulher negra e a memória afro-atlântica assumem protagonismo pleno.
Artista de presença firme e imaginação expansiva, Taquary reafirma a potência da arte como caminho de cura, como reparação simbólica e como afirmação de mundos que resistem, insistem e se reinventam — sempre em diálogo com a força espiritual e estética da diáspora africana.
Em Construção


















































