ACERVO
O Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira — MUNCAB afirma-se como espaço de preservação, registro, reflexão e celebração da diversidade da produção artística visual contemporânea. Artistas negros, no Brasil, na diáspora e continente africano, exploram múltiplas linguagens e territórios estéticos — da pintura à escultura, da gravura à instalação, da performance à fotografia — mobilizando memórias, mas também apontando para questões urgentes do presente e imaginando futuros possíveis.
A produção artística negra contemporânea no Brasil e na diáspora configura-se como um campo de intensa experimentação estética, que atravessa múltiplas linguagens e territórios visuais. Longe de se restringir a uma identidade homogênea ou a um repertório temático previamente delimitado, essa criação se afirmar na pluralidade, revelando uma capacidade de diálogo crítico com os paradigmas da arte global ao mesmo tempo em que elabora formas singulares de inscrição no espaço público, no circuito institucional e no imaginário social.
O Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira, ao reunir obras que dão visibilidade a essa multiplicidade, cumpre um papel fundamental na constituição de um acervo que não apenas preserva, mas também interroga os discursos sobre a arte no Brasil. As obras reunidas evidenciam a potência de artistas que operam entre o figurativo e o abstrato, o experimental e o formal, o pictórico e o digital, expandindo os limites das práticas visuais e desestabilizando fronteiras convencionais entre erudito e popular, centro e periferia, hegemônico e dissidente.
Essa produção não deve ser compreendida como derivativa ou marginal, mas como parte estruturante do pensamento visual contemporâneo. Os artistas negros não ocupam um lugar periférico nesse debate: ao contrário, são protagonistas de movimentos de renovação estética que articulam geometria, cor, materialidade, corpo, espaço e tempo em proposições que reposicionam a arte brasileira no cenário internacional.
Não há um único tema ou estilo que defina essa produção. Ao contrário: a força da arte negra contemporânea está justamente na multiplicidade. São artistas que elaboram sobre o corpo, a identidade, a espiritualidade, a violência, a memória, o afeto, a política e a vida cotidiana. Outros dialogam com a abstração, a geometria, o conceito, o território urbano, a materialidade dos objetos ou os recursos digitais. Cada obra é uma chave para compreender os caminhos pelos quais a experiência negra se transforma em expressão estética, crítica e poética.
O registro dessa diversidade, em suas múltiplas temporalidades e geografias, afirma-se como tarefa central de um museu nacional comprometido com a densidade crítica e a complexidade formal da arte. Mais do que documentar, trata-se de legitimar e projetar a produção visual negra como campo de investigação estética indispensável à compreensão da contemporaneidade. O MUNCAB, ao reunir, salvaguardar e expor essas obras, assume o compromisso de registrar o tempo presente e garantir que a produção afro-brasileira e afro diaspórica seja reconhecida como parte fundamental da história da arte. Trata-se de um museu que não se limita a preservar o passado, mas que se abre ao movimento vivo da criação, tornando-se espelho para as novas gerações e lugar de reconhecimento para toda a sociedade.
Assim, o acervo do Museu não apenas documenta a diversidade de trajetórias e linguagens, mas projeta um futuro em que a arte negra é compreendida em sua potência plena: plural, transformadora e indispensável para a compreensão da nossa cultura.
*Emanoel Araújo
O Museu é um espaço dedicado ao conhecimento e, dependendo das suas especificidades será um centro vivo de memória e história e, essa é a tipologia desse Museu Nacional da Cultura Afro-brasileira, já que no Brasil fica claro as omissões de todas as ordens,
causa principal do apagão cultural constituído nos país debaixo da hipócrita democracia racial. Uma instituição insistente e perversa, que ainda prevalece por falta de políticas públicas e ações afirmativas para pôr fim a discriminação racial, racismo e preconceito social e de todas as formas que impedem avanços contra os Afrodescendentes.
O Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira – MUNCAB – foi criado na intenção de tornar público ações desenvolvidas nas vertentes propostas, como detentor do conhecimento histórico e sociocultural e de outras atividades que possam contribuir para o conhecimento dessa história, da memória dos povos que estão nas raízes da formação do povo brasileiro.
Alguns desafios cerca a criação na Bahia desse museu, por estar no berço da dita “africanidade” criada pelos estereótipos, formado pelo folclore e pelos abusos dos símbolos sagrados e profanos afros, que seguramente perturbará a formação do seu acervo material, razão pela qual deve existir um museu. Portanto, todo cuidado será necessário para que este espaço não se torne um gabinete de curiosidades, devido ao caráter que rege as instituições na Bahia.
Desde muito cedo, certo desejo democrático norteou as ações do seu início, com pessoas pouco experientes e confusas e, a causa desse desconforto partia principalmente da falta de um acervo que de pronto norteasse sua criação, um fio condutor que logo estabelecesse vínculos com as suas várias vertentes.
É a escravização que na diáspora, força o contato e o intercâmbio entre membros de diferentes nações africanas e produz as mais diversas formas de assimilação entre suas culturas e as de seus senhores, bem como de resistência à denominação que a escravidão lhes impõe.
Como um Museu Nacional da Cultura Afro-brasileira precisa contemplar não só o que de africano ainda existe entre nós, mas o que foi aqui apreendido, caldeado e transformado pelas mãos e pela alma do negro, salvaguardando ainda o legado dos nossos artistas – e foram muitos, anônimos e reconhecidos, os que nesse processo de miscigenação étnica, a mestiçagem cultural, contribuiu para a originalidade de nossa brasilidade.
Portanto, esse Museu Nacional da Cultura Afro brasileira tem, pois como missão precípua a desconstrução de estereótipos, de imagens deturpadas e de expressões ambíguas sobre personagens e fatos históricos relativo ao negro, que fazem pairar sobre eles obscuras lendas que no imaginário perverso, que ainda hoje inspira e, que agem silenciosamente sobre nossas cabeças como uma guilhotina, prestes a entrar em ação a cada vez que se vislumbra alguma conquista que represente mudança ou reconhecimento da verdadeira contribuição do negro a cultura Brasileira.
No bojo da formação e da constituição desse acervo, o Museu precisa de obras que possam unir história, memória, cultura e contemporaneidade afro-brasileira e, se possível afro atlântica e africana. Entrelaçando, assim, essas vertentes num grande e poderoso discurso para narrar essa heroica saga da marca deixada pela cruel saga de milhões e africanos que cruzaram o Oceano Atlântico no porão dos navios negreiros e, que apesar da trágica epopeia da escravidão deixou marcas indeléveis por séculos até os nossos dias; incluindo todas as contribuições possíveis. Os legados culturais, de usos e costumes, as revoltas, Malês, a Sabinada e a famosa Batalha da Chibata do marinheiro João Cândido, as participações nas guerras contra os Holandeses, do Paraguai, na Independência da Bahia, e a Legião Negra da Revolução de 32 em São Paulo
Um Museu que reflita uma herança na qual, como num espelho, o jovem negro possa se reconhecer, reforçando a autoestima de uma população excluída e com a identidade estilhaçada, que busca na reconstrução da autoestima a força para vencer os obstáculos à sua inclusão numa sociedade cujos fundamentos seus ancestrais nos legaram.
O Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira tem mesmo um grande desafio de contemplar essa história brasileira de norte a sul, de leste a oeste do país.
Um centro de referência da memória negra que reverencie a tradição que os mais velhos souberam guardar como os cultos religiosos, mas faz reconhecer os heróis anônimos, e os negros ilustre na esfera das ciências das letras e artes, no campo erudito ou popular.
Considerações sobre a constituição do acervo
O acervo do Museu Nacional da Cultura Afro Brasileira precisa ter reconhecimento e qualificação artística e histórica em relação às obras e documentos que integrarão às coleções.
O processo de constituição de um acervo é exigente e moroso, não se encontra facilmente à disposição para aquisição obras e documentos significativos sobre a memória negro-africana que retratem a história e cultura nacional. A arte brasileira feita pelas mãos afro-brasileiras são objeto de uma infindável investigação. Há alguns anos, iniciou-se a pesquisa e os contatos com colecionadores e instituições que tivessem acesso a obras de valor artístico e histórico digno de compor a coleção de um Museu Nacional.
Após um tempo considerável de pesquisas e negociações, se indica um conjunto de obras como primeira aquisição, aquela que inaugura o acervo, possibilitando que o Museu materialize seus princípios, objetivos e conceitos.
