REVERBERAÇÕES
A exposição Reverberações – refletindo a impressão da memória africana, realizada no Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira, apresentou um recorte poético-documental do artista nigeriano Mudi Yahaya, cujo trabalho se insere no campo das visualidades afro-diaspóricas contemporâneas. Por meio da fotografia como dispositivo estético, político e antropológico, Yahaya investiga memórias, identidades e deslocamentos que constituem a experiência africana e afro-brasileira, articulando a persistência de tradições ancestrais aos atravessamentos históricos da diáspora.
A exposição assumiu como eixo central a ideia de “reverberação” — não apenas como metáfora temporal, mas como método de leitura das continuidades que ligam a África Ocidental ao Brasil. As imagens exploram vestígios, gestos e códigos simbólicos que sobreviveram ao processo violento da escravização, reconfigurando-se em práticas religiosas, linguagens visuais, modos de sociabilidade e regimes de memória. Nesse sentido, Reverberações evidencia identidades híbridas e plurais, formadas por intercâmbios culturais complexos e por negociações contínuas entre pertencimento, ruptura e reinvenção.
A mostra também destacou a presença muçulmana negra na diáspora — evocando, por exemplo, o legado da Revolta dos Malês — e ampliou o repertório de representações das populações africanas e afrodescendentes para além das narrativas hegemônicas. Ao situar esses imaginários na escala transatlântica, Yahaya reafirma que as diásporas não constituem somente perdas e traumas, mas também repertórios de criação estética e resistência histórica.
Sob curadoria de Gisela Kayser, Suely Torres e Mireya Palmeira, a exposição consolidou o MUNCAB como espaço de reflexão crítica e de visibilidade para produções negras globais. Sua contribuição reside na capacidade de tensionar o olhar, convocando o público a reconhecer a memória afro-atlântica como fundamento vivo das identidades brasileiras e como campo de elaboração artística capaz de reinscrever sujeitos, narrativas e cosmologias historicamente marginalizadas. Assim, Reverberações reafirma a missão do MUNCAB de promover leituras decoloniais, valorizar patrimônios culturais afro-diaspóricos e estimular diálogos transnacionais que reposicionam a África como centro produtor de conhecimento, estética e história.
Serviço
O quê: Exposição “Reverberações – Refletindo a impressão da memória africana”
Quando: de 22 de março até 29 de junho de 2024
Local: Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira – MUNCAB (R. das Vassouras, 25 – Centro Histórico, Salvador-BA)
Classificação: Livre
Na exposição Reverberações – Refletindo a Impressão da Memória Africana, o artista contemporâneo Mudi Yahaya, um dos nomes fundamentais da fotografia na Nigéria, mobiliza a imagem como dispositivo de investigação histórica, política e sensível. A partir de seu vasto arquivo construído ao longo de mais de duas décadas de viagens pela Nigéria e pela África Ocidental, Yahaya formula uma pesquisa visual que examina como os territórios que estiveram no epicentro do comércio transatlântico de pessoas escravizadas foram atravessados, direta e indiretamente, pelos impactos duradouros desse sistema violento.
A exposição delineia um campo de reflexão que abrange camadas espirituais, sociais, culturais e filosóficas das sociedades africanas, revelando como os efeitos da escravidão continuam a reverberar na experiência global das diásporas africanas. Essa investigação inclui contextos nos quais houve tentativas conscientes de ruptura, negação ou apagamento da herança africana — estratégias que, apesar de históricas, ainda estruturam subjetividades e relações sociais na contemporaneidade.
No eixo atlântico que conecta a Nigéria, Benim, Gana e Senegal ao Brasil, o artista evidencia continuidades e fissuras entre mundos. Os povos africanos capturados à força e trazidos ao Brasil deixaram marcas profundas que, ainda hoje, são visíveis nas formas híbridas da cultura afro-brasileira. Inversamente, após a Revolta dos Malês, em 1835, uma comunidade afro-brasileira retornou à África Ocidental, levando consigo práticas culturais, religiosas e arquitetônicas que reconfiguraram paisagens simbólicas em Lagos, Porto Novo e outras cidades — como testemunha a própria arquitetura afro-brasileira registrada por Yahaya em trabalhos como Abeokuta, Nigéria, 2006.
Essa circulação transatlântica, que antes se realizava sob coerção, reinscreve-se na contemporaneidade por meio de novas formas de violência: migrações marcadas pelo racismo estrutural, desigualdade, precarização do trabalho e reorganizações globais que afetam ecologias humanas e ambientais. A exposição aborda essas permanências como campos de tensão e resistência, afastando leituras simplificadoras e convocando o público a reconhecer a complexidade dos fluxos culturais africanos globais.
Ao articular arquivos fotográficos, modos de representação e estratégias de desconstrução pós-colonial, Mudi Yahaya proposita uma reflexão sobre identidade, nação, tempo e memória. Suas imagens, ao mesmo tempo documentais e especulativas, operam como contra-narrativas visuais, tensionando o olhar e propondo leituras ampliadas das estéticas e existências africanas e afro-diaspóricas.
Curadoria
A mostra é assinada pelas curadoras e artistas sediadas em Berlim Gisela Kayser, Suely Torres e Mireya Palmeira, profissionais com larga experiência internacional em fotografia, cinema, projetos culturais e pesquisa decolonial.
Gisela Kayser
Após dirigir por 25 anos o programa cultural da Willy Brandt Haus, em Berlim — com mais de 300 exposições —, Kayser tornou-se referência no campo da fotografia documental e artística. Atuou como jurada e nomeadora em instituições como a Universität der Künste Berlin e o International Center of Photography (ICP), em Nova York. Desde 2021, trabalha como curadora independente em projetos globais.
Suely Torres
Artista visual brasileira radicada em Berlim desde 1988, Torres transita entre fotografia, vídeo e colagem, sempre orientada por um pensamento literário da imagem. Mestre em Estudos Latino-Americanos pela FU Berlin e especialista em Curadoria pela UdK, ela investiga a fotografia como comunicação intercultural e como dispositivo narrativo.
Mireya Palmeira
Artista de mídia, designer visual e pesquisadora, Palmeira desenvolve projetos internacionais ligados à memória, cinema e processos de restauração audiovisual. Foi responsável pelo projeto 50 Years of Things Fall Apart (Nigéria e Uganda), considerado um dos dez destaques culturais do ano na Nigéria. Dirige o Modern Art Film Archive, que integra a realização desta exposição.
Cooperação internacional
A diretora executiva do Goethe-Institut Salvador-Bahia, Friederike Möschel, expressou sua satisfação em contribuir para trazer essa exposição financiada pelo Ministério das Relações Exteriores da Alemanha para Salvador, ressaltando a importância dessa cooperação internacional em um tema tão significativo historicamente e culturalmente. “Reverberações é um ótimo exemplo de uma cooperação bem-sucedida entre o Brasil e Alemanha em um tema histórico e culturalmente fascinante.”, comenta Möschel.
Para Johannes Bloos, Cônsul Geral da Alemanha em Recife, a exposição é um testemunho do intercâmbio cultural entre a África Ocidental e o Brasil no período pós-escravidão. “Essas são precisamente as questões centrais para muitas pessoas e muitos países no mundo ainda hoje. E é isso que torna essa exposição tão global e contemporânea”, ressalta Bloos.
A exposição, que conta com a participação dos curadores e artistas baseados em Berlim, Gisela Kayser, Suely Torres e Mireya Palmeira, promete mergulhar nos ecos visuais dos violentos processos de colonização e destacar a influência afro-brasileira de escravizados libertos que retornaram para o continente africano, bem como os efeitos desse retorno nas tradições socioculturais do continente.
Sobre o Goethe-Institut:
O Goethe-Institut é um instituto cultural da República Federal da Alemanha, fundado em 1951, que se dedica a fomentar o diálogo entre culturas e é a maior instituição de ensino de alemão no mundo. Com uma rede de 150 unidades em 98 países de todos os continentes, o Goethe-Institut Salvador-Bahia, criado em 1962, promove a aprendizagem da língua alemã, divulga uma imagem abrangente da Alemanha e realiza colaborações locais, nacionais e internacionais na área da cultura, com numerosos parceiros públicos e privados.
Mudi Yahaya é um artista visual que foca em explorar identidades africanas híbridas através de diferentes linguagens visuais, moedas e vocabulários. Ele examina como essas identidades se relacionam com questões políticas, filosóficas, históricas, religiosas, de poder, violência, intolerância, gênero e raça, especialmente em um contexto digitalizado de mídia. Seu trabalho também investiga as relações entre imagens e as estratégias de desconstrução pós-colonial e descolonização da identidade africana em ambientes africanos e não africanos. Além disso, ele se interessa por arquivos fotográficos, explorando contra-narrativas e a relação entre esses arquivos e a ideia de nação e identidade nacional. Seus projetos conceituais de arquivo destacam a performatividade e a multimodalidade das fotografias, influenciando a construção semiótica com significado sociocultural.
Realização
Museu Nacional da Cultura Afro-brasileira
Consulado Geral da República Federal da Alemanha no Recife
Correalização
Goethe-Institut Salvador-Bahia
Gestão do Museu Nacional da Cultura Afro-brasileira
Sociedade Amigos da Cultura Afro-Brasileira
Organização
Modern Art Film Archiv
Direção Executiva
Cintia Maria (Muncab)
Jamile Coelho (Muncab)
Friederike Möschel (Goethe-Institut Salvador-Bahia)
Curadoria
ONO
Coordenação de Produção
Mareike Palmeira
Leonel Henckes
Assessoria de Imprensa
Darana RP
Técnico de Mapping
VJ Cayetano
Designer
Renato Ribeiro
Cenografia
Bruno Wiw
Anderson Miranda
Nahuel de Renzo
Assistente de Cenografia
Jailson dos Santos
Pintura
Gal Sá Oliveira
Montagem de Obras
Paulo Tosta
Assistente de Montagem
Agnaldo Santos
Contrarregras
José Augusto
Paulo Sérgio
Coordenação de Museologia
Tarso Cruz Ferreira
Coordenação Educativa
Clíssio Santana
Mediadores (estagiários)
Félix Moreira
Iasmin Lima
Luís Matheus
Márcia Fraga
Thiago Gomes
Vitor Arcanjo
Coordenação de Produção
Jil Soares
Assistente de Produção (estagiários)
Vanessa Brito
Auxiliar Administrativo (estágio)
Kamila Custódio
Secretária (estágio)
Ally Santana
Tradução de Textos
Mareike Palmeira
Leonel Henckes
Kian Shaikhzadeh
Plotagem
Iplotagem
Comunicação Visual Externa
Sinal Comunicação Visual
Eletricista
Joselito Pinho
Transporte
Antônio Raimundo
Office Boy
Antônio Ferreira
Assessoria Jurídica
Camila Chagas
MUSEU NACIONAL DA CULTURA AFRO-BRASILEIRA
Diretora Geral
Cintia Maria
Diretora Artística
Jamile Coelho
CONSULADO GERAL DA REPÚBLICA FEDERAL DA ALEMANHA NO RECIFE
Cônsul-Geral
Johannes Bloos
Gabinete do Cônsul Geral
Mateus Neves
Imprensa e Ação Cultural
Elaine Xavier Haase
Cônsul Honorária da Alemanha em Salvador
Petra Schaeber
GOETHE-INSTITUT SALVADOR-BAHIA
Diretora Executiva
Friederike Möschel
Diretor do Programa de
Residência VILA SUL
Leonel Henckes
Agradecimentos
Em especial a Pedro Tourinho, Goya Lopes, Léo Furtado, Daniel Jorge, Lua Leça Scobar, Doté Hamilton, Mariaugusta Rocha, Ava Santos, Scheilla Caires, Eder Muniz, Walter Oliveira Pinto Junior, Marta Rodrigues, Diulice Vitório, Ivone Clarinda, Maria Patricia Figueiredo, Luciene Munford, José Carlos Capinan, Sílvio Humberto, Lázaro Cunha, Tássia Mendonça, Carlos Paiva, Analu Magalhães, Cacá Ribeiro.


















































