O Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (MUNCAB), em Salvador (BA), concluiu um dos mais complexos e expressivos processos de repatriação de obras de arte afro-brasileiras da história do Brasil, reunindo um conjunto de mais de 665 obras de 135 artistas, que passaram a integrar o acervo da instituição após mais de três décadas no exterior. O anúncio oficial da incorporação ocorreu em 26 de janeiro, com uma solenidade que reuniu representantes do Estado brasileiro, parceiros institucionais e membros do campo da cultura e do patrimônio.
O acervo, organizado internacionalmente sob o nome Con/Vida pelas colecionadoras norte-americanas Bárbara Cervenka e Marion Jackson, reúne pinturas, esculturas, fotografias, gravuras, xilogravuras, arte sacra e diversas tipologias producidas entre as décadas de 1960 e 2000 por artistas cuja produção dialoga historicamente com a experiência afro-brasileira. Entre eles estão J. Cunha, Babalu (Sinval Nonato Cunha), Goya Lopes, Zé Adário, Lena da Bahia, Raimundo Bida, Sol Bahia e Manoel Bonfim.
O processo de repatriação foi realizado pelo MUNCAB, com coordenação da diretoria e coordenação técnica da equipe museológica e ampla articulação interinstitucional. A operação logístico-técnica envolveu embalagem especializada, normativas de conservação museológica, trâmites alfandegários e transporte internacional, com suporte de diversos órgãos públicos e parceiros.
Estiveram entre os parceiros institucionais do processo o Ministério da Cultura (MinC), que apoiou negociações e compra de mobiliário; o Ministério da Fazenda, envolvido em aspectos regulatórios e de comércio exterior; a Receita Federal, que atuou na alfândega para o desembaraço das obras; e o Ministério das Relações Exteriores, que articulou a diplomacia cultural necessária para o retorno das peças.
Além das instituições públicas, o MUNCAB contou com apoio do Instituto Ibirapitanga, que colaborou no planejamento logístico e na articulação técnico-curatorial do processo, e de parceiros do setor privado como Wilson Sons e Petrobras, que contribuíram em fases específicas das operações de logística integrada necessárias para o traslado seguro da coleção no Brasil e ampliação do corpo técnico museológico para atender a demanda dessa coleção.
A cerimônia de anúncio oficial contou com a presença da ministra da Cultura, Margareth Menezes, que ressaltou o significado cultural e histórico da iniciativa. “O retorno dessas obras ao Brasil representa um reencontro simbólico com a nossa história e anuncia um avanço nas políticas públicas de preservação do patrimônio artístico afro-brasileiro”, afirmou a ministra no evento.
A diretora-geral do MUNCAB, Cintia Maria, afirmou que a repatriação representa um reposicionamento institucional do museu no campo da museologia nacional. “Este processo consolida o MUNCAB como uma instituição capaz de liderar ações que ampliam o reconhecimento e o acesso às produções artísticas afro-brasileiras, assegurando que essas obras dialoguem com os seus territórios de origem e com as histórias que elas contam”, disse.
A diretora artística, Jamile Coelho, destacou que o conjunto Con/Vida amplia o escopo de pesquisa e curadoria na instituição. “Trata-se de um acervo que não só fortalece o acervo permanente do museu, como também possibilita novos modos de leitura sobre autoria, circulação e memória na arte brasileira”, afirmou.
O retorno das obras e sua incorporação ao acervo do MUNCAB ampliam a capacidade da instituição de documentar, preservar e difundir narrativas historiográficas antes marginalizadas, especialmente aquelas produzidas por artistas negros ao longo de décadas. As obras serão objeto de um programa de exposição que começa em março e se desdobra ao longo do ano em mostras de longa duração, catálogos e iniciativas educativas vinculadas à coleção.
O processo também abre espaço para debates nacionais e internacionais sobre restituição, memória cultural e a construção de políticas públicas que reconheçam a centralidade da produção afro-brasileira na história das artes visuais no Brasil.
Serviço
O quê: Chegada da coleção Con/Vida – maior repatriação de arte afro-brasileira da história do Brasil, com 665 obras de 135 artistas
Quando: Obras chegaram em 12 de janeiro de 2026; exposição prevista para início de março
Onde: Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (MUNCAB), Salvador (BA)
Quem: Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (direção artística Jamile Coelho e equipe técnica), Ministério da Cultura (MinC), Ministério das Relações Exteriores, Receita Federal, Fundação Cultural Palmares, Prefeitura de Salvador, colecionadoras Bárbara Cervenka e Marion Jackson e representantes da comunidade artística e cultural brasileira
