36ª Bienal de São Paulo - Itinerância Salvador
Territórios de escrevivências artísticas
Acolher no Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira – MUNCAB a itinerância da 36ª Bienal de São Paulo – Nem todo viandante anda estradas – Da humanidade como prática é colocar sua proposição curatorial em relação com um museu-território cuja própria existência interroga os modos como a história da arte construiu presenças, ausências, centralidades e silenciamentos.
É a partir dessas relações que se constrói o encontro da 36ª Bienal de SP com a cidade de Salvador. Entre Brasil, Haiti, Trinidad e Tobago, Senegal, África do Sul, Nigéria, México, Estados Unidos e Tailândia, as obras reunidas constroem uma geografia descontínua, marcada por diferentes experiências de deslocamento, racialização, colonialismo, memória e produção artística. Não se trata de procurar equivalências entre esses territórios, mas de reconhecer diferenças históricas e, ao mesmo tempo, as relações que determinadas estruturas de poder produziram entre eles.
Para o MUNCAB, pertencimento não pressupõe identidade homogênea. É reconhecer-se como sujeito da experiência cultural, da produção de pensamento e da história da arte. Em diálogo com a escrevivência de Conceição Evaristo, a amefricanidade de Lélia Gonzalez, as relações afro-atlânticas em Beatriz Nascimento, o pensamento de Milton Santos sobre território e vida social, as reflexões de bell hooks sobre olhar e representação e a poética da relação de Édouard Glissant, compreendemos a racialidade como uma estrutura histórica que atravessa também os modos de ver, representar, legitimar e produzir conhecimento que os artistas tensionam, deslocam, recusam e reinventam.
Como território de pertencimento, o MUNCAB não é apenas o lugar onde a exposição acontece, mas parte ativa das relações que ela produz. O corpo do museu — sua arquitetura, sua memória, sua relação com a cidade e com os públicos que o constituem — produz outras condições de encontro com essas obras. O que buscamos é que esse encontro não termine na contemplação. Que ele produza reflexões, deslocamentos e reconhecimentos.
Cintia Maria
Diretora-geral do Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira
36 a Bienal de São Paulo – Itinerâncias
Nem todo viandante anda estradas – Da humanidade como prática
Nem todo viandante
anda estradas,
há mundos submersos,
que só o silêncio
da poesia penetra.
Conceição Evaristo – excerto de “Da calma e do silêncio”
Minha alegria é saber que você é eu
e que eu sou fortemente você.
René Depestre – excerto de “Une Conscience en fleur pour
autrui”
A 36ª Bienal de São Paulo se abre como um encontro: mundos, histórias e ritmos convergem em polifonia. Um espaço que se ergue por essas múltiplas vozes que, em deslocamento, não buscam ser relatos de migrações ou brados de identidades e suas políticas, mas refletir sobre a noção de humanidade em uma era de desumanização em massa. A exposição, feito um estuário onde águas doces e salgadas se encontram, torna-se um lugar de negociação, de nutrição, de luta e, possivelmente, de reparação. Suas confluências criam terrenos férteis nos quais as práticas de humanidade podem assumir novos significados. Quais caminhos seguimos para praticar a humanidade? De que maneira nos permitimos sair da rota traçada, abraçar a errância, nos perder e encontrar outros mundos e a nós mesmos de novo? Ecoando a evocação da poeta afro-brasileira Conceição Evaristo de “mundos submersos, que só o silêncio da poesia penetra”, esta exposição emerge como limiar, passagem e morada, ao sugerir de forma metafórica caminhos e contextos que a humanidade, ocupando o papel de viajante, pode seguir ou habitar.
Humanidade é uma prática.
Humanidade é um verbo.
Ela pode be conjugada.
Etimologicamente relacionado à palavra “húmus”, isto é, solo, o humano evocado aqui em nada coincide com aquele que toma a terra como bem material a ser cercada e tratada como posse, mas para quem ela é sinônimo de pertencimento, sustentáculo de sua própria existência sempre em comunidade. Não importa onde se esteja, portanto não restrito à sua origem ou chegada. Prática coletiva que, de quebra, é resistência aos legados coloniais e à exploração de todas as formas de vida – humanas e mais-que-humanas –, uma vez que orgânico e inorgânico são parte de um todo interligado e, logo, interdependente. De um todo e de todos que requerem cuidado recíproco. Prática que, mais que ser vista ou lida, precisa de escuta profunda e atenta, ressoando a soberania, a emancipação e a dignidade da persistência. Motivo musical, composição em movimento enquanto aquilo que se desloca em diferentes direções, avesso ao progresso predatório. Afirmação da força da vulnerabilidade, das cosmogonias ancestrais, das visões do futuro e do detalhe atento aos gestos cotidianos. Nesse sentido, esta Bienal é partitura viva, por meio da qual o caminho entre as obras e de cada obra como caminho em si são repletos da partilha de diferentes maneiras de navegar paisagens, ao trabalhar, descansar, festejar, ritualizar. É convite para que o corpo mova-se aberto à solidariedade, a estar junto, ao reconhecimento da coexistência e da beleza como prática política e poética.
Equipe conceitual da 36ª Bienal de São Paulo
EN
36th Bienal de São Paulo Not All Travellers Walk Roads – Of Humanity as Practice
Not all travellers
walk roads,
there are submerged worlds,
that only the silence
of poetry penetrates.
Conceição Evaristo – Excerpt “Da calma e do silêncio”
My joy is knowing that you are me,
and that I am deeply you.
René Depestre – Excerpt “Une Conscience en fleur pour autrui”
The 36th Bienal de São Paulo opens as an encounter: worlds, stories, and rhythms converge into a polyphony. A space that rises from these multiple voices which, in displacement, do not seek to be accounts of migrations or cries of identity and their politics, but rather to reflect on the notion of humanity in an era of mass dehumanization. Like an estuary where fresh and salt waters meet, the exhibition becomes a place of negotiation, of nourishment, struggle, and possibly repair. Their confluence creates fertile grounds in which practices of humanity can take on new meanings. Which paths do we take to practice humanity? How do we allow ourselves to go off track, to embrace errancy, to get lost and to find other worlds and ourselves anew? Echoing Afro-Brazilian poet Conceição Evaristo’s evocation of “submerged worlds that only the silence of poetry penetrates,” this exhibition emerges as a threshold, passage and dwelling, by metaphorically suggesting paths and contexts humankind, as travellers, might follow or inhabit.
Humanity is a practice.
Humanity is a verb.
It can be conjugated.
Etymologically related to the word “humus,” – “soil,” – the “human” evoked here in no way coincides with the one who takes the land as a material good to be enclosed and treated as property. Rather, it refers to one for whom the land is synonymous with belonging, the sustaining ground of an existence that is always communal. It does not matter where that human is, and therefore is not restricted to origin or destination. A collective practice that, moreover, constitutes resistance to colonial legacies and to the exploitation of all forms of life – human and more-than-human bodies – , since the organic and the inorganic are part of an interconnected whole and, thus, interdependent. A whole, and all those within it, that require mutual care. A practice that, beyond being read or seen, calls for deep and attentive listening, resonating with sovereignty, emancipation, and the dignity of persistence. A musical motif, a composition in motion that shifts in different directions, opposed to predatory notions of progress. An affirmation of the strength of vulnerability, of ancestral cosmogonies, of visions of the future, and of a careful attention to everyday gestures. In this sense, this Bienal is a living score, through which the paths between the works – and each work as an open path in itself – are filled with the sharing of different ways of navigating landscapes, through working, resting, celebrating, and ritualizing. It is an invitation for the body to move, open to solidarity, to togetherness, to the recognition of coexistence and of beauty as a political and poetic practice.
Conceptual Team of the 36th Bienal de São Paulo
Fundação Bienal de São Paulo
Fundador
Francisco Matarazzo Sobrinho · 1898 –1977 presidente perpétuo
Conselho de administração
Eduardo Saron · presidente
Ana Helena Godoy Pereira de Almeida Pires · vice-presidente
Membros vitalícios
Adolpho Leirner
Beno Suchodolski
Carlos Francisco Bandeira Lins
Cesar Giobbi
Elizabeth Machado
Jens Olesen
Julio Landmann
Marcos Arbaitman
Maria Ignez Corrêa da Costa Barbosa
Pedro Aranha Corrêa do Lago
Pedro Paulo de Sena Madureira
Roberto Muylaert
Rubens José Mattos Cunha Lima
Membros
Adrienne Senna Jobim
Alberto Emmanuel Whitaker
Alfredo Egydio Setubal
Ana Helena Godoy Pereira de Almeida Pires
Angelo Andrea Matarazzo
Beatriz Yunes Guarita
Camila Appel
Carlos Augusto Calil
Carlos Jereissati
Célia Kochen Parnes
Claudio Thomaz Lobo Sonder
Daniela Montingelli Villela
Eduardo Saron
Fábio Magalhães
Felippe Crescenti
Flavia Buarque de Almeida
Flavia Regina de Souza Oliveira
Flávio Moura
Francisco Alambert
Heitor Martins
Isay Weinfeld
Jeane Mike Tsutsui
Joaquim de Arruda Falcão Neto
José Olympio da Veiga Pereira
Kelly de Amorim
Ligia Fonseca Ferreira
Lucio Gomes Machado
Luis Terepins
Luiz Galina
Maguy Etlin (licenciada)
Manoela Queiroz Bacelar
Marcelo Mattos Araujo
Mariana Teixeira de Carvalho
Miguel Setas
Neide Helena de Moraes
Nina da Hora
Octavio de Barros
Rodrigo Bresser Pereira
Rosiane Pecora
Susana Leirner Steinbruch
Tito Enrique da Silva Neto
Conselho fiscal
Edna Sousa de Holanda
Flávio Moura
Octavio Manoel Rodrigues de Barros
Conselho de honra
Heitor Martins
Jorge Eduardo Stockler
José Olympio da Veiga Pereira
Julio Landmann
Luis Terepins
Luiz Fernando Rodrigues Alves
Manoel Francisco Pires da Costa
Oscar Landmann
Roberto Muylaert
Conselho consultivo internacional
Frances Reynolds · presidente
Ana Helena Godoy Pereira de Almeida Pires · vice-presidente
Andrea de Botton Dreesmann, Quinten Dreesmann
Barbara Sobel
Caterina Stewart
Catherine Petitgas
Christopher Apostol
Flávia Abubakir, Frank Abubakir
Laurie Ziegler
Mélanie Berghmans
Miwa Taguchi-Sugiyama
Pamela J. Joyner
Paula Macedo Weiss, Daniel Weiss
Sandra Hegedüs
Vanessa Tubino
Diretoria executiva
Andrea Pinheiro – presidente
Maguy Etlin – primeira vice-presidente
Luiz Lara – segundo vice-presidente
Ana Paula Martinez
Francisco Pinheiro Guimarães
Maria Rita Drummond
Ricardo Diniz
Roberto Otero
Solange Sobral
Superintendência Executiva
Antonio Thomaz Lessa Garcia
Equipes internas
Arquivo Bienal; Comunicação; Educação; Financeiro; Gestão de Materiais e Patrimônio; Projetos; Relações Institucionais e Parcerias; Superintendência Executiva
MUSEU NACIONAL DA CULTURA AFRO-BRASILEIRA
Realização | Presented by
Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira
Ministério da Cultura e Petrobras
Gestão do MUNCAB | MUNCAB Management
Sociedade Amigos da Cultura Afro-Brasileira (AMAFRO)
Direção-geral | General Direction
Cíntia Maria
Direção artística | Artistic Direction
Jamile Coelho
Coordenação de produção | Production Coordination
Davi Lima
Coordenação dos laudos museológicos | Condition Report Coordination
Laila Barbosa
Laudos museológicos | Condition Reports
Daniela Moreira de Jesus
Cláudio Rafael Almeida de Souza
Railda Lemos Sampaio
Estagiária de museologia | Museum Studies Intern
Adu Santos
Assessoria de comunicação | Communications
KAÔ Comunica | Rafael Brito
Assessoria jurídica | Legal Counsel
Camila Chagas
Gestão do educativo | Education Program Management
Associação Sociocultural NUBAS
Mediador cultural | Cultural Mediator
Gabriel Borges Cerqueira
Estagiários de mediação | Cultural Mediation Interns
Adrian Alves
Caique Santos
Emilly Manhães
Geovana Ferreira
Jaiane Eloy
João Gabriel Pinheiro
Jonadabe Oliveira
Juliana Rocha
Larissa Vasconcelos
Luiza Santos
Maria Rita Santos
Mércia Carvalho
Renata de Jesus
Sara Belmonte
Silwana Brito
Sinalização e plotagem | Signage and Large-format Printing
LUX Gráfica & Comunicação Visual
Uranus
Montagem | Exhibition Installation
Pintores | Painters
Alan Silva dos Santos
Alex Paiva
Emerson Silva
Gilson Ferreira dos Reis
Jerônimo de Sena Barbosa
Leandro do Nascimento
Manoel Missias do Carmo
Nilton da Silva Braga
Valter da Boa Morte
Vladimir de Freitas
Cenografia | Scenography
Alan Rosalvo dos Santos
Lucas Santos Ferreira
Lucas Guimarães Muniz Costa
Marcio Barbosa Costa
Serralheria | Metalwork
Adriano dos Santos Hortins
Alan Conceição Leite
Alisson Oliveira de Freitas
Antônio Carvalho Leite
Carlos Santos Filho
João Marcos Hora Melo
Pedro Filipe Rodrigues Santos Leite
Rodrigo Orestes Barbosa
Costureira | Seamstress
Vitorino Cortinas
Passadeira | Fabric Pressing
Maria Lúcia Ramos Dias
Montagem fina | Fine Art Installation
Afeto Montagem Fina
Agnaldo Costa
Augusto Leal
Paulo Tosta
Victor Anatólio
Iluminação cenotécnica | Exhibition Lighting
LR Entretenimento
R Lobo Iluminação
Iluminador | Lighting Designer
Luciano Reis
Assistentes e técnicos de iluminação | Lighting Assistants and Technicians
Alan Cerqueira | Técnico / Technician
Gabriel de Jesus | Técnico / Technician
Marcos Brasil | Eletricista / Electrician
Marcos DD | Assistente / Assistant
Marina Porto | Assistente / Assistant
Roberto Lobo | Assistente / Assistant
Thaimara Leite | Assistente / Assistant
Eletricista | Electrician
JP Serviços Elétricos | Joselito Pinho
Audiovisual | Audiovisual
Voxel Design de Interação | Caetano Travassos
Logística | Logistics
Antônio Carlos Ferreira
Egnaldo Saraiva Reis
Jorge Sonora
Robson Oliveira Borges
Segurança, vigilância e limpeza | Security, Surveillance and Cleaning
Pitta Segurança e Serviços
Monitoramento 24 horas | 24-hour Monitoring
Escudo
36ª Bienal de São Paulo
Nem todo viandante anda estradas – Da humanidade como prática
Equipe conceitual
Curador geral: Bonaventure Soh Bejeng Ndikung
Cocuradores: Alya Sebti, Anna Roberta Goetz, Thiago de Paula Souza
Cocuradora at large: Keyna Eleison
Consultora de comunicação e estratégia: Henriette Gallus
Cocuradores adjuntos: André Pitol, Leonardo Matsuhei
Identidade visual
Studio Yukiko
itinerância Salvador
Curadoria
Keyna Eleison, Thiago de Paula Souza
Expografia
Gisele de Paula
Autores dos textos
Aldones Nino, Ana Paula Lopes, André Pitol, Ariana Nuala, Billy Fowo, Hanayrá Negreiros, Margarita Lila Rosa, Marissa Del Toro, Starasea Nidiala Camara, Thania Petersen
Audiovisual
Patrícia Mesquita (consultoria)
Conservação
Paulo Otávio Laia, Daisy Conceição Santos | Museológicas – Soluções em Museologia
Iluminação
Anna Turra Lighting Design (consultoria)
Transporte
Nilson Lopes (consultoria), Millenium
Consultoria de acessibilidade
Mais Diferenças


















